Conta a ampliação das pistas da Marginal Tietê

Nós, arquitetos membros do Grupo de Patrimônio do IAB-SP – INSTITUTO DE ARQUITETOS DO BRASIL – SĂO PAULO, achamo-nos no dever profissional e cidadăo de redigir este documento público, através do qual manifestamos nossa total perplexidade e repúdio ao projeto de ampliaçăo das pistas da via Marginal do rio Tietê ao longo de 15 quilômetros a partir do anel viário conhecido como “Cebolăo”, e igual ou maior repúdio à construçăo de duas alças de acesso para fazer a ligaçăo entre a via expressa (Marginal do Tietê) e duas avenidas locais (Avenida Tiradentes e Avenida Cruzeira do Sul). Em total contradiçăo com o projeto do Rodoanel – que corretamente objetiva desafogar o tráfego veicular da área urbana do município –, a ampliaçăo do número de faixas de rolamento das Marginais do Tietê constitui-se num indutor à circulaçăo de veículos naquela área central da cidade, negando todo o embasamento conceitual de tráfego que guiou os estudos de implantaçăo do Rodoanel. O projeto pretendido zomba, também, do massivo investimento que foi feito, pelo Governo do Estado, na recuperaçăo dos taludes do rio Tietê através da implantaçăo de rico projeto paisagístico que incluiu o plantio de árvores, árvores que serăo totalmente suprimidas, assim como a área permeável dos taludes e faixa ciliar do rio, para dar lugar a pistas de rolamento. Nas grandes metrópoles do mundo – veja-se o recente exemplo da cidade de Seul, Coréia, visitada pelo Prefeito de Săo Paulo no mês de maio –, os rios vêm merecendo tratamento oposto: projetos que abordam os rios como marcos hidrográfico do território urbano, e que se apropriam desses marcos como elementos de qualificaçăo da paisagem urbana, inibindo a sua conexăo com o automóvel, incentivando a sua conexăo com o pedestre e com a vegetaçăo urbana. As duas alças viárias pretendidas constituem-se em equívoco maior, por diversas razơes urbanísticas. Primeiro equívoco: o projeto baseia-se numa premissa estreita, reduzindo a questăo à soluçăo de um problema de tráfego veicular, qual seja: eliminar pontos de estrangulamento de tráfego. Ora, desafoga-se aqui, empurrando para adiante o ponto de estrangulamento – pois a quantidade de veículos circulando năo diminui com essa providência. Isto é racional Segundo equívoco: Para “empurrar” para outro local o ponto de estrangulamento, vale o custo de rasgar e poluir a paisagem com viadutos Note-se um dado importante: todas as pontes urbanas que cruzam o rio Tietê ligam vias locais e, como tal, têm seu traçado bastante ortogonal e perpendicular ao rio. As duas alças pretendidas têm, ao contrário, traçado em curva, denunciando sua mera funçăo rodoviarista, incompatível com o caráter urbano das pontes existentes. Terceiro equívoco: o projeto das duas alças carece de um mínimo de sensibilidade e de compreensăo do caráter da paisagem urbana paulistana daquele trecho da cidade, pois se intromete nas visadas do conjunto da Ponte das Bandeiras, a mais bonita e bem composta, do ponto de vista arquitetônico, das pontes que atravessam todos os rios da cidade de Săo Paulo. A Ponte das Bandeiras carrega alto valor simbólico, pois está implantada no exato local onde no passado existiu a antiga Ponte Grande, a primeira que transpôs o rio mais paulistano da cidade. O comprometimento da visăo do conjunto da Ponte das Bandeiras (ponte-tabuleiro, cabeceiras, torres) será deletério, definitivo e irreversível, caso vingue a construçăo das inadequadas alças rodoviárias sobre o rio. Por prever os prejuízos urbanísticos da realizaçăo da ampliaçăo das Marginais do Tietê, e principalmente os prejuízos paisagísticos decorrentes de uma eventual construçăo das duas alças viárias, somos impelidos a solicitar a todos os atores e instâncias responsáveis pela viabilizaçăo desse equivocado empreendimento rodoviarista que avaliem cautelosamente o projeto, e decidam pelo bem da preservaçăo da história, da memória e do decoro urbanístico.

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Autor da Moçăo: Arquiteto. Vasco de Mello Grupo de Trabalho Patrimônio Histórico do IAB-SP

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